domingo, 8 de setembro de 2013


A gente morre todos os dia. Mas se esquece e levanta.


[...]

A gente morre quando acorda. Morre de tédio, de preguiça, morre de mesmice, ou não, como apregoaria Caetano Veloso, com aquela voz de fruta sumarenta e lenta degustada em algum recanto nordestino. Tem pessoas que já morreram faz tempo. E nunca desconfiaram disso. Morrem de medo de encarar o medo, de colocar a coragem debaixo de um braço e o medo apoiado no outro braço e prosseguir caminhando, como ressaltaria Brecht.



Morre-se de pavor de mudar cacoetes, opiniões, certezas, repetindo automaticamente velhos e ranhetas comportamentos. Morre-se de medo de encarar as verdades da alma, no espelho da consciência, cujos reflexos nem sempre soam agradáveis ou digestivos. Medo de e enfrentar a relação puída, mas mantida apesar do visível desgaste, devido às oportunas muletas financeiras e quiçá psicológicas. A gente morre na repetição infindável de defeitos pra lá de conhecidos, nossos e dos outros, e anunciados instante após instante em nossa gestualidade e fala reveladora.

[...]


Fonte: http://www.revistabula.com/530-a-gente-morre-todos-os-dias-mas-se-esquece-e-levanta/

"E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."


(Água Viva: Clarice Lispector)


terça-feira, 20 de agosto de 2013

La petite mort – Coeur de pirate


(Morte precoce)

A duração de um suspiro
Em uma noite de verão
Os anjos partiram antes
E seus rostos manchados de branco
Eu acho que é tarde demais
Pra te confessar que dói
Com meu coração morrendo
E minhas lembranças manchadas de branco.

Se eu perder, sei que serei sua
No oco dos seus braços, vamos sacudir a morte
Porque se eu perder
É somente pra seguir sendo sua
E no oco dos seus braços, vamos sacudir a morte.

A chuva escorre em minhas têmporas
O relâmpago canta a sua descida
Recolhido contra minha vida
Ecos do seu sorrido e em seguida se esconde
Eu acredito que seja tarde demais
Pra te confessar que dói
Meu coração não é como antes
Porque ele dorme lentamente.



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Eu Sei - Renato Godá


Eu sei,
que o homem-bala voa,
que a trapezista voa,
e o tempo ainda é pior

Eu sei,
que os automóveis correm,
que os trens nos trilhos correm,
e o tempo ainda é pior.

Porém,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Eu sei,
a vida inteira é curta,
passado não tem curva,
e o tempo ainda é pior.

Eu sei,
os sonhos envelhecem,
certezas vão embora,
e o tempo ainda é pior.

(2X)Porém,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Por fim,
se o Super-Homem voa,
se a bailarina voa,
e o tempo ainda é pior.

Eu vou,
nesse compasso lento,
em meio ao contratempo,
sem pressa de entender.

E sim,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Sim,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.




Cartas de amor - Álvaro de Campos


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



segunda-feira, 8 de julho de 2013

"[...] De repente ele não tinha mais medo da morte. Não tinha mais medo de nada. Esse êxtase delirante livrara-o de todas as preocupações e enchera-o de uma alegria tão abrangente, que se ele tivesse que dar seu último suspiro antes do nascer do sol do dia seguinte, suas últimas palavras seriam: "Não chorem por mim, pois eu amei de verdade".

[...]

- Boa noite, minha senhorita.
Quatro palavras bastaram. [...] Um simples cumprimento, porém, ao mesmo tempo, a coisa mais magnífica que ela já ouvira um homem dizer. Foi o "minha" que ela não conseguiu esquecer. Ele dissera a palavra como se estivesse procurando por ela há muitos anos, talvez até durante uma vida inteira."


(GABEL, Claudia. Romeu & Julieta e Vampiros (Adaptação de William Shakespeare). São Paulo: Pandorga, 2011. 227 p.)


"Sentir é muito lento

Os olhos da ingrata que nunca nos beija, a luz de um corpo que apaga os caminhos, os seios submersos da sereia. Todas as velocidades e vacilos do coração que, de tão lento, quase pára; ou solta faísca e incendeia o horizonte. De quantas maneiras se diz desejo?"


"Meu corpo deixa sulcos na areia.
São marcas suaves, um pouco de mim que se modela

nas coisas, meu alucinado desejo de permanecer...

(Cacaso)"


(CESAR, Ana Cristina et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2007. 104 p. (Para Gostar de Ler; 39))