terça-feira, 20 de agosto de 2013

La petite mort – Coeur de pirate


(Morte precoce)

A duração de um suspiro
Em uma noite de verão
Os anjos partiram antes
E seus rostos manchados de branco
Eu acho que é tarde demais
Pra te confessar que dói
Com meu coração morrendo
E minhas lembranças manchadas de branco.

Se eu perder, sei que serei sua
No oco dos seus braços, vamos sacudir a morte
Porque se eu perder
É somente pra seguir sendo sua
E no oco dos seus braços, vamos sacudir a morte.

A chuva escorre em minhas têmporas
O relâmpago canta a sua descida
Recolhido contra minha vida
Ecos do seu sorrido e em seguida se esconde
Eu acredito que seja tarde demais
Pra te confessar que dói
Meu coração não é como antes
Porque ele dorme lentamente.



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Eu Sei - Renato Godá


Eu sei,
que o homem-bala voa,
que a trapezista voa,
e o tempo ainda é pior

Eu sei,
que os automóveis correm,
que os trens nos trilhos correm,
e o tempo ainda é pior.

Porém,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Eu sei,
a vida inteira é curta,
passado não tem curva,
e o tempo ainda é pior.

Eu sei,
os sonhos envelhecem,
certezas vão embora,
e o tempo ainda é pior.

(2X)Porém,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Por fim,
se o Super-Homem voa,
se a bailarina voa,
e o tempo ainda é pior.

Eu vou,
nesse compasso lento,
em meio ao contratempo,
sem pressa de entender.

E sim,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.

Sim,
posso esquecer das horas,
abusar da demora,
pra ficar com você.




Cartas de amor - Álvaro de Campos


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



segunda-feira, 8 de julho de 2013

"[...] De repente ele não tinha mais medo da morte. Não tinha mais medo de nada. Esse êxtase delirante livrara-o de todas as preocupações e enchera-o de uma alegria tão abrangente, que se ele tivesse que dar seu último suspiro antes do nascer do sol do dia seguinte, suas últimas palavras seriam: "Não chorem por mim, pois eu amei de verdade".

[...]

- Boa noite, minha senhorita.
Quatro palavras bastaram. [...] Um simples cumprimento, porém, ao mesmo tempo, a coisa mais magnífica que ela já ouvira um homem dizer. Foi o "minha" que ela não conseguiu esquecer. Ele dissera a palavra como se estivesse procurando por ela há muitos anos, talvez até durante uma vida inteira."


(GABEL, Claudia. Romeu & Julieta e Vampiros (Adaptação de William Shakespeare). São Paulo: Pandorga, 2011. 227 p.)


"Sentir é muito lento

Os olhos da ingrata que nunca nos beija, a luz de um corpo que apaga os caminhos, os seios submersos da sereia. Todas as velocidades e vacilos do coração que, de tão lento, quase pára; ou solta faísca e incendeia o horizonte. De quantas maneiras se diz desejo?"


"Meu corpo deixa sulcos na areia.
São marcas suaves, um pouco de mim que se modela

nas coisas, meu alucinado desejo de permanecer...

(Cacaso)"


(CESAR, Ana Cristina et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2007. 104 p. (Para Gostar de Ler; 39))



segunda-feira, 17 de junho de 2013

"[...] quando Renato cantava, estava se dirigindo a cada pessoa em particular, não a uma massa indistinta, não a uma vala comum de sentimentos. "Ei, esse cara está falando é comigo", era o sentimento de todo e qualquer espectador.

[...]

"Sou um jovem de vinte e poucos anos, não sei nada da vida", reclamava. E as pessoas bebem minhas palavras como água. E escrevo justamente porque não sei. Não quero que minha opinião sobre temas controvertidos, drogas, por exemplo, influencie outra pessoa.""



(DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: o Trovador Solitário. 3. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. 183 p.)


segunda-feira, 10 de junho de 2013

"Gary tem estado próximo das pessoas e tem toda uma cidade repleta de amigos, mas nem uma vez achara que conhecera alguém como achava que conhecia a mulher que escreveu essa carta. Era como se alguém lhe houvesse rasgado o alto da cabeça e surrupiado um pedaço da alma. Estava tão envolvido com as palavras que a mulher escrevera que qualquer pessoa, passando por ali, poderia tê-lo empurrado da cadeira com um dedo. Um abutre poderia ter pousado na travessa detrás da cadeira em que estava sentado, ter soltado um grito estridente bem no seu ouvido, e Gary não teria ouvido nenhum som."

"É assim que deve ser estar bêbada, Sally descobre-se pensando, enquanto Gary se pressiona de encontro a ela. As mãos dele estão sob sua pele e ela não o detém. Estão sob sua camiseta, estão dentro do seu short e, ainda assim, ela não o detém. Quer o calor que ele a está fazendo sentir. Ela, que não consegue agir sem instruções e um mapa, quer peder-se nesse exato momento. Pode sentir-se cedendo a seus beijos, está disposta a fazer praticamente qualquer coisa. É assim que deve ser estar louca, imagina ela. Tudo o que está fazendo é tão contrário ao seu costumeiro eu que, quando Sally avista sua imagem no anuviado espelho retrovisor, fica atordoada. É uma mulher que poderia apaixonar-se se se permitisse, uma mulher que não detém Gary quando ele levanta seu cabelo escuro, depois comprime a boca na curva de seu pescoço."


(HOFFMAN, Alice. Da magia a sedução. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 194 e 230)