domingo, 9 de janeiro de 2011


Eu Te Amo – Chico Buarque
Composição: Tom Jobim / Chico Buarque


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.



Feliz Livro Novo!


Encerra-se mais um ano em sua vida...
Quando este ano começou, ele era todo seu.
Foi colocado em suas mãos..
Podia fazer dele o que quisesse...
Era como um Livro em Branco, e nele você podia ter
um poema, um pesadelo uma blasfêmia, uma oração.

Podia...
Hoje não pode mais, já não é seu.
É um livro já escrito...
Concluído...
Como um livro que tivesse sido escrito por você, ele um dia lhe
será lido, com todos os detalhes, e não poderá corrigi-lo.
Estará fora de seu alcance.
Portanto...
Antes que termine este ano, reflita, tome seu velho livro
e folheie com cuidado...
Deixe passar cada uma das páginas pelas mãos e pela consciência;
Faça o exercício de ler a você mesmo.
Leia tudo...
Aprecie aquelas páginas de sua vida em que usou seu melhor estilo.
Leia também as páginas que gostaria de nunca ter escrito.
Não...
Não tentes arrancá-las.
Seria inútil...
Já estão escritas.
Mas você pode lê-las enquanto escreve o novo livro que será entregue.
Assim, poderá repetir as boas coisas que escreveu, e
evitar repetir as ruins.

Para escrever o seu novo livro, você contará novamente
com o instrumento do livre arbítrio, e terá, para
preencher, toda a imensa superfície do seu mundo.
Se tiver vontade de beijar seu velho livro, beije.
Se tiver vontade de chorar, chore sobre ele e, a seguir,
coloque-o nas mãos do Criador.
Não importa como esteja...
Ainda que tenha páginas escuras, entregue e diga
apenas duas palavras: Obrigado e Perdão!!!
E, quando o novo ano chegar, lhe será entregue outro
livro, novo, limpo, branco, todo seu, no qual irá escrever
o que desejar...


(Autor Desconhecido)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011


Sina Nossa - O Teatro Mágico
Composição: Fernando Aniteli


Mia senhora,
És de lua e beleza
És um pranto do avesso
És um anjo in verso
Em presença e peso
Atrevo-me atravesso
Pra perto do peito teu

Teu sagrado e tua besteira
Teu cuidado e tua maneira
De descordar da dor
De descobrir abrigo
Entre tanto amor
Entretanto a dúvida
A música que casou
Um certo surto que não veio

Há uma alma em mim,
Há uma calma que não condiz...
Com a nossa pressa!
Com resto que nos resta
Lamentavelmente eu sou assim...

Um tanto disperso
Às vezes desapareço
Pois depois recomeço
Mas antes me esqueço

Nossa sina é se ensinar...
A sina nossa é...
Nossa sina é se ensinar...
A sina nossa...

Minha senhora diz:
Bons ventos para nós
Para assim sempre
Soprar sobre nós...



Poema 25 
Arriete Vilela


O tempo é obscuro inimigo que nos corrói o coração.
Baudelaire


O tempo des/const/rói a vida.
Por isso já não me decifro
em palavras, atos e omissões.
Nem me interessa se em achas obscura
ou absurda.

Quero estar dentro do tempo que me destrói
e me constrói e me rói.
Mas, sobretudo, me reconstrói.
Todo dia, intensa e repetidamente.

Quero herdar as palavras do tempo
para refazer-me em monossílabos:
céu, dor, paz, sim, mar, flor,
e abrir-me em leque: arte, amor, chuva,
mulher, gozo, paixão
saudade, desejo, poesia,
travessia.

O tempo nos tem des/const/ruído.

Por isso não deves esperar por mim.
Só o tempo roedor de vidas e de coração
importa: um tempo – longo ou breve -
de fazer durar apenas um adeus.


Fonte: VILELA, Arriete. Ávidas paixões, Áridos amores. Maceió: Grafmarques, 2007.

Meditação
José Mário Rodrigues


Não tem utilidade o esforço
de escrever o poema
nem o que se amarga
durante o caminho.

Cada um sabe de sua paisagem
do eco dos seus desejos
e onde aquietar o pensamento.


Fonte: RODRIGUES, José Mário. Alicerces da ventania. Brasília:Vila Velasco, 2003.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


Soneto de Infidelidade
Milton Rosendo


A mais, amor não seria se não te amasse e não traísse
e traindo-te, a ti, retornasse ainda mais fiel e amante
e ainda mais certo de que amar é um descomedir-se...

A mais, se não te traísse, Amor, amando o que não amo,
burlando por amor a ti esse amor firme e constante,
que seria da fé de que perder-te é o que mais temo?

Bem mais de ti me ajunto quanto mais de ti me afasto
e se, em outros corpos, te busco numa vã entrega,
é para, ao fim de tudo, achar-te em minha busca cega
e a ti me entregar num amor mais delatado e casto...

Bem mais te pertenço em não pertencer-te e trair-te
numa torrente de amor que se afirma quando nega
ao que ama de maneira louca e vasta e sôfrega
e que só se dá aos poucos, a cada vão instante...


Fonte: ROSENDO, Milton. Os Moinhos. 1. ed. Maceió: EDUFAL, 2009.

Mas conheço também outra vida ainda. Conheço e quero-a e devoro-a truculentamente. É uma vida de violência mágica. É misteriosa e enfeitiçante. Nela as cobras se enlaçam enquanto as estrelas tremem. Gotas de água. Nesse escuro as flores se entrelaçam em jardim feérico e úmido. E eu sou a feiticeira desse bacanal muda. Sinto-me derrotada pela minha própria corruptabilidade. E vejo que sou intrínsecamente má. É apenas por pura bondade que sou boa. Derrotada por mim mesma. Que me levo dos caminhos da salamandra, gênio que governa o fogo e nele vive. E dou-me como oferenda aos mortos. Faço encantações no solstício, espectro de dragão exorcizado.”

(Água Viva: Clarice Lispector)