segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.”


(Água Viva: Clarice Lispector)

Versos de Orgulho
Florbela Espanca


O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e desdém.

Porque o meu Reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?
- O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos, pão bendito...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
- São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o infinito.


Fonte: ESPANCA, Florbela. Sonetos. São Paulo: Martin Claret, 2002.

domingo, 2 de janeiro de 2011


Corações Psicodélicos - Lobão
Composição: Lobão / Bernado Vilhena / Julio Barroso


Ainda me lembro daquele beijo, spank punk violento
Iluminando o céu cinzento, eu quero você inteira
Gosto muito do seu jeito, qualquer nota bossa nova
Bossa nova qualquer nota, eu quero você na veia.

E a vida passa na TV
E o meu caso é com você
Fico louco sem saber
Sim pro sol, sim pra lua
Eu quero você toda nua
Sim pra tudo que você quiser.

Gosto muito do seu jeito, rock'n roll meio nonsense
Rock'n roll meio nonsense, pra acabar com essa inocência
E o complexo de decência, no meio do salão.

E a vida passa na TV
E o meu caso é com você
Fico louco sem saber
Sim pro sol, sim pra lua
Eu quero você toda nua
Sim pra tudo que você quiser.

Hoje é festa na floresta, toda tribo ateia som
Toda taba ateia sol, só tomando água de coco
Infeliz de quem tá triste
No meio dessa confusão.



A-Ha – Crying in the rain


(Chorando na Chuva)

Eu jamais te deixarei perceber
Como meu coração partido está me machucando
Eu tenho meu orgulho e sei como esconder
Toda a minha tristeza e sofrimento
eu farei meu pranto na chuva.

Se eu esperar por céus nublados
Você não distingüirá a chuva das lágrimas em meus olhos
Você jamais saberá que ainda te amo tanto
Embora os desgostos permaneçam no coração
eu farei meu pranto na chuva.

Gotas de chuvas caindo do céu
Jamais poderiam lavar meu sofrimento
mas, uma vez que não estamos juntos
Eu esperarei por um tempo chuvoso
Pra esconder as lágrimas que eu espero que você jamais perceba.

Algum dia, quando meu pranto estiver acabado
Eu vou exibir um sorriso e caminharei sob o sol
Posso parecer um tolo
Mas até lá, meu bem, você nunca me verá queixar
eu farei o meu pranto na chuva.

Uma vez que não estamos juntos
Eu esperarei por um tempo chuvoso
Pra esconder as lágrimas
Que eu espero que você jamais perceba.

Algum dia, quando meu pranto estiver acabado
Eu vou exibir um sorriso e caminharei sob o sol
Posso parecer um tolo
Mas até lá, meu bem, você nunca me verá queixar
eu farei o meu pranto na chuva.





Audioslave - I am the highway


(Eu Sou a Estrada)

Pérolas e porcos afastem-se de mim
Longo e cansativo meu caminho tem sido
Eu estava perdido nas cidades
Sozinho nas montanhas
Nenhuma tristeza ou pena
Por partir
Eu sinto.

Eu não sou suas rodas girando
Eu sou a estrada
Eu não sou seu tapete voador
Eu sou o céu.

Amigos e mentirosos
Não esperem por mim
Porque eu me erguerei
Por minha própria conta.

Eu coloquei milhões de milhas
Sob meus calcanhares
E ainda assim me sinto perto demais de você
Eu sinto.

Eu não sou suas rodas girando
Eu sou a estrada
Eu não sou seu tapete voador
Eu sou o céu
Eu não sou o vento soprando em você
Eu sou o relâmpago
Eu não sou sua lua de outono
Eu sou a noite
A noite.


domingo, 26 de dezembro de 2010


Manual de conservar caminhos IV


A natureza segue suas próprias regras: desta maneira, você tem que estar preparado para súbitas mudanças do outono, o gelo escorregadio no inverno, as tentações das flores na primavera, a sede e as chuvas de verão. Em cada uma destas estações, aproveite o que há de melhor, e não reclame das suas características.

Faça do seu caminho um espelho de si mesmo: não se deixe de maneira nenhuma influenciar pela maneira como os outros cuidam de seus caminhos. Você tem sua alma para escutar, e os pássaros para contar o que sua alma está dizendo. Que suas histórias sejam belas e agradem tudo que está a sua volta. Sobretudo, que as histórias que sua alma conta durante a jornada sejam refletidas em cada segundo de percurso.

Ame seu caminho: sem isso, nada faz sentido.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010



Bossa Atômica – Gato Zarolho
(Milton Rosendo / Marcelo Marques)


De beleza inculta a puta flor do meu verso
a puta flor tão bruta flor como o desejo
quer ver verter nos cantos todos do universo
numa cordissonante alegria fevereira
bruta cadência de prosódia batucada
quero-te língua achar teu beijo em meu beijo
quero sentir a mais o sim do som do samba
a impura ganga da ginga, a gana, o molejo
a toda prova no arrastado da sandália
quero-te língua ouvir teu brado retumbante
de agogôs, tantãs, atabaques e pandeiros
quero sentir a expansão do são, tua delícia...

O esplendor e a dor de tua face verdadeira
coincidir loucura e sonho em cada minúcia
da não-gramática de eternas dissonâncias
da fala crua das ruas, juventudes e violas
quero o nonsense dos requebros das mulatas
erram os outros, sonâmbulos, tão estetas
o passo, o lance, o dado, a conta, a cor da roupa
passam ao largo do são, caretas, caretas...

De tua trama, tua transa, teu transe multicor
linda bacante, bacana, sacana língua,
última filha do Lácio, lasciva flor
reinventa teus mares, tuas ilhas, brasis, poetas...

Tuas guerrilhas, medos, meninos e meninas
sejas país, ó língua, sempre canção e festa
nos sins, nos sons, no que é são, o samba, o samba
desperta o tom, o bom, acende o samba, o samba
acorda, sim, pra este anti-magnificat ao torpor
linda bacante, bacana, sacana língua,
última filha do Lácio, lasciva flor